Análise: Crise nas Forças Brasileiras

Meios acusam envelhecimento enquanto situação económica daquele país dificulta a manutenção operacional nos três ramos.

A crise nas forças brasileiras é algo de extraordinário, apesar da falta de meios urgentes ou da inoperacionalidade dos que estão em serviço, o facto é que biliões continuam  a ser investidos em projectos que, se concluídos, apenas irão beneficiar o sector operacional dentro de longos anos.
 
O país investe, por exemplo, numa frota de submarinos nucleares a serem construídos no Brasil, mas sem que a sua frota de Submarinos convencionais sequer esteja num padrão adequado para tal transição, ou seja, se ao menos a sua frota convencional estivesse num padrão desejável e temível a aquisição de tal meio seria até que plausível, mas o facto é que não está. Para além disso, os mesmos submarinos que deverão ser movidos por um reactor nuclear, ironicamente, não estarão armados com melhores equipamentos  que não estejam já disponíveis por exemplo num U-214, convencional, de fabrico alemão. A utilidade do mesmo seria unicamente a sua autonomia mas a sua viabilidade é reduzida, serão precisos anos e mais que um vector para tornar o modelo fiável o que irá consumir milhões de forma extraordinária, isso poderá fazer com que, algures no meio desse processo, a parte política decida que "já chega", cancele o projecto e declare satisfação por parte da Marinha.
 
"Submarino Nuclear Brasileiro"
 
No passado dia 28 de Abril, um navio logístico, o NDD - Navio de Desembarque Doca - Ceará, sofreu uma avaria em plena navegação para o Haiti, a embarcação, que é o principal meio do tipo na Marinha Brasileira, deveria levar material necessário para o destacamento do Exército e da Força Naval daquele país que cumpre missão no país da América Central. 
 
O Navio está agora em reparos mas o seu retorno ao serviço é de certa forma instável e depende da disponibilidade financeira em manter um navio, da década de 50, em serviço. Para além disso, o segundo Logístico desta classe, o NDD Rio de Janeiro, deveria encontrar-se em "manutenção e testes" de acordo com a informação obtida pelo PDN (Portugal Defense News), mas nem sequer se encontra mais na lista de meios da Marinha, a embarcação terá portanto sido desactivada.
 
NDD Ceará
 
Esta classe foi adquirida aos Estados Unidos nos anos 90 apesar do seu óbvio envelhecimento e passou recentemente por uma reforma de seis anos, mas o mesmo acaba de se revelar mais um entrave na evolução da operacionalidade marítima brasileira.
 
A Marinha do Brasil tem ainda ao dispor 3 navios de Desembarque de Carros de Combate, de acordo com o site deste ramo, mas a sua utilidade não é de todo comparável ou prática. Como se de uma má situação não se trata-se, os almirantes brasileiros já declararam que nenhum navio do tipo será adquirido nos próximos tempos, já que apenas aceitarão uma classe existente, que passe por todo um processo de selecção internacional e que seja construída em solo brasileiro.  Sendo que o Ceará apenas ficará funcional dentro de no mínimo 100 dias (já passaram) e que o Rio de Janeiro também está indisponível, o Brasil já se encontra em busca de privados que possam realizar o tipo de transporte pretendido para que as suas comissões humanitárias no Haiti não sejam afectadas.
 
Ainda assim, o desvio de preciosos recursos para um desnecessário submarino nuclear, que apenas entrará ao serviço por volta de 2025, que já agora é pouco provável, é, aos olhos dos militares brasileiros, mais prioritário.
 
Porta-aviões São Paulo, desde a sua entrada em serviço em 2001 a embarcação quase não navegou e dificilmente permaneceu operacional durante mais que 4 ou 6 meses consecutivos.
 
Ainda na Marinha, vale a pena falar, que o porta aviões São Paulo, tão aclamado meio que confere ao Brasil uma posição nos prestigiados países que operam este tipo de navio, não está sequer operacional, sendo que o mesmo passou mais tempo atracado do que a navegar. Após reparos e modernizações está definitivamente comprovado que a sua única utilidade é pegar fogo, matar marinheiros e sugar dinheiro dos cofres brasileiros. Mais recentemente foi decidido que seriam precisos mil biliões de reais (algo a volta dos 400 milhões de euros) para definitivamente acabar com os seus problemas que vão desde o convés à propulsão e estruturas de amianto, mas a marinha brasileira não tem fundos para tal encargo com biliões a serem desviados para outras áreas, umas mais necessárias, outras simplesmente incompreensíveis. Este navio entrou em serviço na Marinha Francesa em 1961 e foi transferido para a Marinha Brasileira em 2001, numa compra simbólica de 12 milhões de dólares (bastante convidativo) que na altura parecia uma excelente oportunidade já que não haveria capacidade de adquirir um novo. Só não se esperava que um porta-aviões que praticamente apenas cumpriu missões de "porta-helicópteros" apresenta-se tantos problemas, mesmo estando esteticamente em bom estado.
 
"Escoltas" (expressão aplicada no Brasil visto ser um porta-aviões o "navio almirante" da esquadra)
 
A força naval tem nove fragatas como principais meios combatentes/escoltas, seis da classe Niteroi e três da classe Greenhalgh, as primeiras são da década de 70 e 80 e as segundas, embora adquiridas entre 1995 e 97, estavam já a operar na Marinha Real do Reino Unido desde 1979/82. 
 
Passaram já alguns meses que uma fragata da classe Niterói, a União, sofreu uma avaria no mediterrâneo enquanto rumava para a costa do Libano para render o Navio Patrulha "Apa", este ultimo tinha sido destacado de forma provisória para que o retorno da Constituição, também da classe Niterói, fosse possível. Felizmente a União foi reparada e conseguiu acabar por ser enviada para o Líbano, de forma a retirar do cenário o Patrulha Apa, inadequado para aquele tipo de missão.
 
Duas Fragatas da classe Niterói
 
Este tipo de situações parece que se tornou mais recorrente desde que o Brasil decidiu tomar uma postura mais forte no apoio internacional, dando a entender, aos mais pessimistas, que a mesma não se encontra capaz de manter uma defesa mínima nos mares nacionais e ao mesmo tempo, enviar meios para o estrangeiro.
 
Duas das fragatas Niterói encontram se em manutenção, a "Constituição" após missão de seis meses estará de baixa e portanto apenas três se encontram activas, uma no estrangeiro e outras duas pelos mares brasileiros. Com os cortes orçamentais o Brasil deverá vender ou desactivar uma destas fragatas assim como uma das suas quatro corvetas e vale a pena dizer que estas ultimas, pela sua idade e vida útil, são provavelmente os meios de maior valor das escoltas brasileiras, algo incomum numa Marinha.
 
Corveta da classe Inhaúma
 
Ambas as classes irão alcançar o "limite dos limites" por volta de 2020 mas a Marinha já espera que as Niterói aguentem até 2030. Por volta deste período as três Forças (Marinha, Exército e Força Aérea) entrarão em grande pressão, visto que muito material mais antigo estará a ser substituído ou revisto assim como irá ser notado o impacto da entrada em serviço de novos equipamentos já planeados. 
 
A Força Aérea também não escapa nesta análise, este ramo tem como espinha dorsal perto de 50 caças F5 modernizados para um padrão que transformou uma plataforma pura da 3ª geração numa de 4ª, salienta-te apesar de tudo o facto de o mesmo representar uma plataforma esteticamente bastante limitada. A empresa que faz estas modernizações nos caças F5M é a brasileira Embraer, a 3ª maior empresa aeronáutica do mundo.
 
A viabilidade deste projecto talvez não seja tão satisfatória, o Brasil não tinha necessariamente que gastar tanto dinheiro numa plataforma da categoria do F5 e fez-lo, talvez, para apoiar a indústria nacional, algo que, embora seja de aplaudir, tem causado certos danos na economia das Forças Armadas.
 
F-5M Tiger brasileiro
 
Parte dos F5 foi desactivada e substituída por outras plataformas, de outros países, que estariam em melhor estado, o facto é que tal não seria de todo necessário visto que se pouparia custos numa frota mais reduzida para mais tarde investir em áreas mais prioritárias (visto que pouco tempo estarão em serviço e pouco ou nada se melhorou a situação). Os mesmos deverão agora ser substituídos pelos Gripen NG a serem construídos no Brasil, ao abrigo de uma cooperação com a Suécia.
 
O Brasil irá receber o Gripen numa versão especialmente desenvolvida para as suas necessidades
 
O FX2, que envolveu a escolha destes aviões suecos (Gripen), atrasou se vários anos e isto levou por consequência a que fosse adquirido um caça "tampão" enquanto um novo não era escolhido, isto aconteceu porque os 12 envelhecidos Mirage III que faziam a defesa da capital brasileira, Brasília, chegaram a um ponto de restrições que tornaram impossível mantê lo por mais anos. Em 2000 a aeronave foi retirada, substituída por 12 Mirage-2000 da Força Aérea Francesa, mas talvez até ai se tenha cometido um erro.
 
O Brasil acabou por receber um caça, que tal como o anterior, estava limitado pela vida útil e em Dezembro de 2013, apenas 5 anos depois da entrega do ultimo, foram desactivados.
 
Mirage 2000
 
Não seria mais viável adquirir uma aeronave com maior vida útil e menor desgaste estrutural? Na altura Portugal, assim como a Holanda,  tinha caças F-16MLU para venda que não só estavam mais apetrechados, como serviriam melhor o Brasil, deve-se ter em conta que o Mirage 2000 foi o escolhido pela sua parecença com o que agora era retirado (Mirage-III) o que reduziu os custos da entrada da nova aeronave, mas com um avião do tipo do F-16 a Força Aérea iria ter, supostamente, maior folga operacional e os custos mais elevados iriam ser compensados pelo maior valor militar e de serviço dos F-16MLU portugueses que permitiriam a consequente desactivação de alguns F-5 de menor valor. Resumindo, seria possível poupar algum dinheiro, tão precioso na manutenção de outros meios.
 
O padrão do F16MLU iria representar algo que a Força Aérea não obtém a partir de nenhum meio em serviço ou que tenha estado no passado, como se não chegasse o F16 também iria facilitar a incorporação do futuro Gripen e a desactivação do F5, pela natureza "completa" do próprio avião.
 
Os F-16 portugueses teriam sido uma boa oportunidade para a Força Aérea Brasileira
 
Apesar de tudo, esta é talvez uma das áreas com melhor horizonte nos ramos militares brasileiros, onde finalmente se vê algum progresso.. 
 
Vale a pena referir que o Exército substituiu o grosso dos seus tanques por carros de combate Leopard1A5 em segunda mão, o problema não é serem usados mas sim serem da mesma categoria que outros tanques mais velhos e já em serviço no Exército Brasileiro. O 1A5 não é melhor que um M60A3TTS já existente no arsenal brasileiro e que aliás, em Portugal, foi já parcialmente substituído pelo Leopard2A6, este sim, um tanque moderno.
 
Leopard 1A5, poderá ter representado um retrocesso, na altura da aquisição a Holanda disponibilizava várias unidades do Leopard 2A6 (uma das melhores plataformas do tipo).
 
Sem dúvida, o Brasil tem caminhado por um bom caminho com medidas para providenciar a independência militar tão merecida por aquele país, mas talvez a intenção não tenha reflectido nas decisões. 
 
Uma análise mais completa demoraria dias e a equipa do "Portugal Defense News" fica por aqui, confiantes que deixámos clara a nossa opinião, pedida por um dos nossos leitores. Era nossa intenção ter desenvolvido uma análise "pura" mas sabemos que (única e exclusivamente por falta de pontos de vista requisitados, mas ignorados, a outras entidades) este texto acabou por se tornar algo que "opiniativo".
 
Fonte: Vários
Texto: Portugal Defense News....and global
Imagens: Internet
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ultima actualização às 23h58 do dia 21 de Setembro de 2015
 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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